No último dia do Encontro, debatedores defendem o diálogo na construção de acordos

No último dia do Encontro, debatedores defendem o diálogo na construção de acordos

Diálogo. Esta foi a palavra-chave dos debates do último dia do II Encontro do Movimento Pessoas à Frente, que teve como tema “Pessoas em Movimento: Diálogos para um Melhor Estado”. A sexta-feira, 17 de setembro, foi aberta pelo americano Daniel Shapiro, autor do livro “Negociando o inegociável”, e teve ainda a participação do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB) e da ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Carmen Lúcia; além de integrantes do Movimento, o presidente do Conselho do Conselho Nacional de Secretários de Administração (Consad), Fabrício Marques Santos; e o presidente da Associação Nacional dos Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental (Anesp), Pedro Pontual. Coube a Jorge Paulo Lemann, da Fundação Lemann, um dos apoiadores do Movimento Pessoas à Frente, junto com o Instituto Humanize e a República.org, o encerramento.

​​Daniel Shapiro abriu o encontro com a defesa de uma tese especialmente intrigante nestes tempos de polarização: é possível reunir pessoas que pensam de forma não apenas diferente, mas oposta, e discutir temas polêmicos como política. Mais do que isso, é viável acreditar na negociação, apesar das batalhas que dominam as redes sociais, para a solução de conflitos. Professor de psicologia na escola de medicina da Universidade de Harvard e criador de um programa de negociações internacionais na mesma instituição, Shapiro chama atenção para o que batizou como “as cinco tentações”, conceitos que nos levam à mentalidade tribal, aquela que nos distancia do diálogo e da compreensão do ponto de vista do outro, do “oponente”.

“O meu conselho, se quiserem um país unido, é o de cultivar uma identidade de política positiva, como Mandela fez na África do Sul. Não sou eu ou você, branco ou preto. Somos todos nós trabalhando juntos nos interesses comuns”, disse Shapiro, que propôs ao final da sua apresentação um exercício de negociação aos participantes do evento realizado em um espaço privado, distante da audiência.

Debates e experiências

Abrindo o debate, o governador gaúcho Eduardo Leite exaltou a importância da negociação e do diálogo para conseguir aprovar uma agenda com mudanças estruturais em seu Estado.  Lembrou que desde janeiro de 2019, quando tomou posse, dialogou com todos os deputados gaúchos, incluindo a oposição, sindicatos e entidades representativas da sociedade civil. “Foi um ambiente de colaboração, em que a negociação abriu espaço para todos”, disse Leite. 

A ministra Carmen Lúcia argumentou que o diálogo é um tema sério e atual e que está na essência da humanidade. “Nossa civilização se constrói, como digo mineiramente, pela prosa”, afirmou a ministra. Carmen Lúcia usou sua experiência no mundo do Direito para ilustrar a necessidade do diálogo e do direito ao contraditório para que todos possam falar e serem ouvidos. “Antes da magistratura, atuei por 30 anos como advogada, e um advogado leva paixão para defender um lado. Um juiz renuncia a sua paixão e coloca em cena sua compaixão”, afirmou a ministra, acrescentando que a Justiça brasileira busca a mediação e a conciliação antes de julgar um conflito, para dessa forma tentar aproximar as partes para uma negociação. “É o que defino como novo conceito: a conciliação”, disse.

Fabrício Marques, do Consad, ressaltou a importância do diálogo e do papel do Movimento Pessoas à Frente na discussão da gestão de pessoas no serviço público. “Essa agenda tem que ser tratada como prioritária”, afirmou. Ele defendeu ainda a necessidade do combate às distorções e distopias de carreiras no setor público, além da formação de lideranças e a inclusão nas discussões de uma agenda que trate da diversidade no serviço público.

Para Pedro Pontual, presidente da Anesp, é preciso discutir a gestão de pessoas com base no diálogo, na diversidade e na construção coletiva. “Temos uma revolução pela frente e o tempo urge”, afirmou, acrescentando que ele e os demais servidores públicos brasileiros precisam estar dispostos a rever pontos que foram tornados “indevidamente sagrados”.  “Apenas um ponto é realmente sacrossanto: tudo que fazemos precisa ser em função do cidadão, o usuário dos serviços pelos quais somos responsáveis”, defendeu.

No encerramento do encontro, Jorge Paulo Lemann reforçou a necessidade das conversas para resolução de problemas em comum. Argumentou que a internet tem contribuído ultimamente mais para promover brigas do argumentações, mas disse estar convencido que os “brasileiros vão voltar a um sistema de dialogar e conviver bem”. “Acredito que através do diálogo e da boa convivência é que se anda para frente”, afirmou.